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O Hard Market

mercado segurador Seguros

O histórico Lloyd’s of London sempre assumiu o seu papel no mundo segurador como o local certo para colocar riscos complexos ou invulgares. Grandes riscos ligados à tecnologia, construção, à indústria, ou até mesmo acidentes com desportistas ficaram garantidos no mercado de Londres. Em contrapartida, como qualquer um destes tipos de risco têm o potencial de gerar sinistros milionários de um momento para o outro, tornava-se prioritário manter a sustentabilidade da oferta a longo prazo.

Porém, a par da reconhecida capacidade de subscrever os riscos de nicho, a experiência e capacidade técnica da subscrição presente em Lloyd’s atraiu também a colocação regular de riscos mais comuns. Estando sujeitos à concorrência dos mercados locais, a competitividade da oferta foi adquirindo importância, motivando uma redução generalizada de prémios ao longo dos últimos anos, muitas vezes mantendo o mesmo nível de cobertura.

Esta dicotomia entre redução de prémios e apetite por grandes riscos leva à necessidade esporádica de períodos de reajuste de regras de subscrição e de prémios, de modo a equilibrar as contas e manter a sustentabilidade nos rácios de sinistralidade. Nestes períodos, conhecidos como hard market, tende a haver muita procura pela capacidade de seguro, ao mesmo tempo que a oferta se encontra limitada.

No mundo globalizado de hoje, claro que este endurecimento de regras de subscrição não se limita a Londres e se transmite também aos mercados locais. Qualquer segurador procura impor as suas restrições nos mercados locais o que, por sua vez, aumenta a pressão da procura no mercado de Londres, enquanto solução de recurso para a colocação de seguros. Globalmente, o apetite por novo negócio diminui e como consequência, os prémios aumentam.

No hard market que atravessamos, em particular, há um conjunto de fatores que o tornam bastante significativo.

Desde logo, a competitividade dos prémios nos últimos anos, que face às despesas e indemnizações pagas estava a produzir um retorno praticamente nulo sobre os investimentos em seguros. Afastando-se o capital disponível para novos investimentos, reduz-se também capacidade seguradora para responder a novos riscos.

A entrada em vigor de nova legislação europeia (Solvency II) veio também introduzir barreiras à entrada de novos seguradores, desde 2016, bem como novas exigências de solvabilidade financeira que limitaram a capacidade de subscrição já existente.

Inevitavelmente, também a pandemia teve o seu (forte) contributo. Ao passo que os prémios de seguro diminuíram, em consequência das reduções de faturação das empresas, os valores de indemnização aumentaram.

Para além destes fatores, existiu ainda um número crescente de sinistros nos últimos anos, decorrentes de catástrofes naturais, ataques cibernéticos, problemas nos setores automóvel e de aviação. Tudo somado, Lloyd’s registou sinistros superiores a 100 mil milhões de dólares, só em 2020, o que sem mais causas já justificaria uma tomada de ação.

Qualquer interveniente no mercado de seguros que tenha contacto com grandes riscos já terá reparado que os prémios têm estado a aumentar genericamente para todos os riscos, ao mesmo tempo que a subscrição se torna mais seletiva. Os processos de renovação geram conversas difíceis entre clientes e mediadores, e a hipótese de não conseguir suporte para colocação de um novo risco deixou de ser remota para ser um cenário a considerar.

O endurecimento do mercado não dá, ainda, sinais de abrandamento, pelo que é uma realidade a ter em conta na mediação. Eventualmente, o tal equilíbrio nas contas dos seguradores será conseguido e o ciclo de mercado avançará para um soft market, mais competitivo, expansivo e certamente mais sustentável a longo prazo, mas até lá existem considerações potencialmente vantajosas.

Para os mediadores, poderá ser útil trabalhar riscos de uma forma integral, procurando concentrar atividades, seguros, ou até mesmo carteiras, de modo a privilegiar o estabelecimento de parcerias sólidas e proporcionar uma análise global de resultados. Em caso de novos riscos ou novos seguros, será essencial sensibilizar previamente os clientes para as dificuldades no mercado, para que as expectativas dos seus clientes se possam adaptar à disponibilidade da oferta.

O hard market também implica redução da concorrência, o que poderá trazer vantagens futuras. Para os segurados, sobretudo para os que necessitam de alterar ou aumentar as garantias de seguro, sugerimos a ponderação das coberturas numa lógica de eficiência e necessidade imediata para a empresa. Poderá não ser o momento mais apropriado para procurar a solução de cobertura mais abrangente ou com os maiores limites, mas sim para encontrar as melhores coberturas para os seus principais riscos.

A solvabilidade e equilíbrio financeiro que se procura obter neste período é a mesma que irá depois garantir uma maior solidez de cobertura aos segurados.

Por Eduardo Félix, Responsável de Subscrição Liability & Specialties

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