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Blog - A morte do artista

A morte do artista

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Um dos dogmas mais famosos do mundo das artes é que quando morre um artista a obra que deixa aumenta de valor.

Faz sentido, não é?

Por um lado, e por motivos óbvios, ele deixa de produzir novas peças. Por outro, o ruído social provocado pelo falecimento também contribui para haver mais procura pela obra deixada. Isto é bastante visível, por exemplo, em escritores ou músicos cujos trabalhos são reeditados e voltam aos tops de vendas nessas alturas.

E nos casos de bens mais escassos (peças únicas ou primeiras edições) a Economia diz-nos que o aumento de procura acaba por levar inevitavelmente ao aumento dos preços.

Portanto, o dogma acaba por ser comprovado com factos, certo?

Na verdade, não. Ou melhor, nem sempre.

Na realidade, e em geral, a morte de um artista tem um impacto reduzido no valor financeiro das suas obras. Por vários motivos que são fáceis de perceber.

Os artistas em geral levam hoje em dia uma vida mais regrada e profissional. Há um cuidado maior consigo e com a sua obra. Isto faz com que não só a esperança de vida dele seja superior como a sua produção seja mais prolífica e constante. A ausência de raridade de peças acaba por reduzir o impacto do falecimento já que continuaram a existir muitas no mercado.

A própria gestão levada a cabo pelos herdeiros, ou dealers de arte, é muitas vezes danosa para o valor das próprias obras: existe sempre uma tendência natural para o “despejar” no mercado de peças pertencentes ao artista por forma a realizar mais-valias. O que traz o efeito exatamente contrário ao esperado, e que é o do excesso de oferta acabar por reduzir o valor e o interesse das mesmas.

E, claro, tudo depende de se é um artista reconhecido ou não. Um artista que em vida nunca alcançou fama, ou foi esquecido, só muito raramente encontrará o reconhecimento depois de falecido. E, se as obras valiam pouco em vida, pouco valerão depois de morto. Como em tudo, a consistência nas vendas, e o mediatismo da obra, é que garante o reconhecimento do mercado.

Há também toda uma gestão de expetativas associadas ao falecimento de um artista.

Vários estudos têm demonstrado que, mais que no momento da morte, existe um aumento de procura de obras de artistas quando existe a expetativa de que esse falecimento vá ocorrer em breve. Ou seja, nos últimos anos de vida existe um aumento de interesse pela obra de um artista, inflacionando os valores das suas peças. O objetivo é claro e razoável: o artista já não produzirá muito mais peças com a sua idade avançada e existe um interesse óbvio em realizar “um bom negócio” com o falecimento, devido ao dogma do aumento de valor posterior.

Com o inundar do mercado por essas obras a experiência tem demonstrado que os preços tendem a reverter aos valores habituais para o artista em vida.

Mas existem exceções.

A morte do artista tem, efetivamente, impacto no valor das obras deste quando a morte é inesperada. Se o artista morre relativamente jovem, mas já depois de ter ganho alguma notoriedade, existe uma procura desenfreada pelas (poucas) peças deixadas, assim como um culto de personalidade que valoriza não só a obra como endeusa o próprio artista.

E, aí sim, o valor das obras de arte pode aumentar várias vezes a cotação destas em vida.

Um exemplo óbvio disto é Jean-Michel Basquiat.

Basquiat faleceu aos 27 anos (entrando para o “restrito” grupo de celebridades falecidas com essa idade) mas teve uma vida preenchida e polémica. Começando como graffiter, acabou por ganhar fama como músico e artista plástico, tendo namorado com a Madonna e colaborado com Andy Warhol, entre outros. Foi a imagem de marca de um determinado estilo de vida de Nova Iorque nos anos 80, a década dos excessos. Acabou por falecer de uma overdose, com um cocktail de cocaína e heroína.

As suas obras, sempre polémicas, dispararam de valor imediatamente após a sua morte, passando em muitos casos a valer 10 vezes mais.

Mas, não sendo caso único, é caso raro de um dogma a funcionar.

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